A tarde de sábado começa com uma ligação para o vizinho: “Traz seu controle extra”. Em vinte minutos, quatro amigos espremidos no sofá, dois controles emprestados, uma televisão de tubo e Mario Kart 64 na tela. Essa cena não precisa de explicação para quem viveu os anos 90. O N64, a máquina multiplayer por excelência daquela geração, se explica sozinho.
Poucos consoles fizeram tanto pela experiência de jogar em grupo quanto o Nintendo 64. Não era só jogar junto: era trair o amigo com um item azul na última volta, era sobreviver ao caos de Mario Party, era o silêncio tenso de GoldenEye com a tela dividida em quatro. A máquina criou uma linguagem social que quem cresceu nessa época ainda lembra com precisão.
Aqui no Gamer das Antigas, esse universo é levado a sério: dos clássicos do N64 aos guias práticos de emuladores, o objetivo é sempre o mesmo: manter essa cultura viva e acessível. Este artigo é para quem quer reviver essas tardes, seja com hardware original ou com os emuladores modernos que permitem jogar com amigos do outro lado do país.
A revolução que o N64 trouxe para a sala de estar
Os jogos que transformavam qualquer tarde em campeonato
Falar de multiplayer no N64 é falar de títulos com alma coletiva. Mario Kart 64 foi o segundo jogo mais vendido do console e com razão: as corridas caóticas com itens criavam traições e reações em cadeia que poucos jogos reproduziam. GoldenEye 007 abriu o caminho dos shooters em primeira pessoa para consoles domésticos e ainda hoje é citado como um dos multiplayers mais marcantes da história do videogame. Super Smash Bros. trouxe o puro caos de até quatro jogadores num estilo de luta que não existia antes, e Mario Party popularizou o conceito de party game em consoles com minigames que colocavam amizades à prova.
Diddy Kong Racing e Bomberman 64 completavam esse repertório. Cada jogo criava uma dinâmica social diferente: o kart pedia reação rápida e um pouco de crueldade estratégica, o GoldenEye exigia combinados de regras entre os jogadores, e o Mario Party tinha aquela crueldade lenta, acumulada ao longo de turnos. Era uma biblioteca construída para ser jogada com outras pessoas na mesma sala.
Quatro controles, uma tela só e uma geração formada por isso
O que tornava o N64 único do ponto de vista estrutural era o suporte nativo a quatro controles sem nenhum acessório adicional. O SNES e o PS1 precisavam de multitap para chegar a quatro jogadores. O N64 já vinha preparado de fábrica. Essa diferença parece pequena no papel, mas na prática mudou tudo: montar uma sessão de quatro jogadores virou algo simples e imediato, sem intermediários.
No Brasil, onde reunir amigos numa tarde de fim de semana era o programa padrão, o multiplayer no N64 deixou marca. O ritual de buscar controles emprestados, reorganizar o sofá e dividir a tela virou parte da experiência. O design do controle tridente, estranho à primeira vista, fazia sentido nas mãos: a pegada com a alça central e o analógico direcionava o polegar de forma natural para os jogos 3D da época. Era um objeto feito para aquele momento específico da história dos games.
N64, a máquina multiplayer: quais emuladores suportam partidas hoje
Simple64 e Gopher64: as opções mais modernas para netplay
Em 2025, Simple64 é a recomendação principal para quem quer jogar N64 online. Funciona no Windows, Linux e Steam Deck, tem netplay integrado e a configuração é direta: baixe na página de releases do Simple64, extraia o arquivo ZIP e execute o simple64.exe. A aba Netplay já está na interface, sem plugins extras nem configurações obscuras. Para Linux, a instalação via Flatpak é ainda mais simples.
Gopher64 é a outra opção moderna que vale a pena conhecer. Ele combina a base do Simple64 com melhorias de compatibilidade e já inclui netplay integrado, com suporte a servidores estáveis e setup em poucos cliques. Para jogos como Mario Party e GoldenEye, onde a sincronização entre jogadores é crítica, as duas opções entregam resultados mais consistentes do que emuladores mais antigos. O RetroArch, apesar de versátil, apresenta dificuldades relatadas com netplay em comparação com essas duas alternativas.
Project64 e RetroArch: quando faz sentido usá-los
O Project64, especificamente na versão 2.3.2 com o plugin AQZ NetPlay, ainda é popular em comunidades mais antigas e tem uma vantagem prática: há fóruns ativos e uma base consolidada de usuários que produz conteúdo de suporte. Se você prefere mais controle sobre plugins e configurações avançadas, essa versão ainda é válida. A curva de aprendizado é maior, mas o resultado pode ser bem ajustado.
O RetroArch é uma opção modular que funciona bem para emulação geral, mas para netplay de N64 especificamente, os relatos de instabilidade são mais frequentes. Vale usá-lo se você já tem o ecossistema montado e prefere centralizar tudo num só lugar. Se estiver usando RetroPie, existe um guia de otimização para Nintendo 64 no RetroPie que ajuda a melhorar desempenho e compatibilidade. Para quem está começando do zero com foco em multiplayer online, Simple64 ou Gopher64 economizam tempo e frustração.
Como configurar o Project64 para netplay
Instalação, ROMs e plugins de vídeo
Baixe a versão Project64 2.3.2 AQZ NetPlay e extraia o arquivo ZIP numa pasta de sua escolha. Ao abrir o emulador pela primeira vez, uma janela de suporte pode aparecer: insira o código fornecido para não ver mais essa tela. Com o emulador aberto, vá em File > Choose ROM Directory e aponte para a pasta onde estão seus jogos. Todos os títulos aparecerão listados automaticamente.
Para o plugin de vídeo, acesse Options > Configure Graphics Plugin e mantenha o Glide N64 como padrão. Ele oferece a melhor compatibilidade para sessões netplay e evita conflitos comuns com outros plugins. Um detalhe crítico: todos os jogadores precisam usar ROMs idênticas, com o mesmo checksum, para evitar desincronização durante a partida. Versões diferentes da mesma ROM causam desync mesmo com tudo configurado corretamente.
Configurando controles, portas e a sessão netplay
Vá em Options > Configure Control Plugin e mapeie seu controle. Para um controle Xbox, por exemplo, configure Start, L, R, Z e o analógico nos campos correspondentes, testando cada botão antes de salvar. Com os controles prontos, clique em Apply e OK.
Para hospedar uma sessão, use o comando /host 65535 (a porta 65535 é a mais comum para netplay no PJ64, conforme documentado pela comunidade AQZ NetPlay). O jogador que vai se conectar precisa do seu IP e dessa porta. Para evitar expor seu IP público e melhorar a estabilidade da conexão, use o Hamachi: ele cria uma rede virtual privada entre os jogadores, simulando uma rede local e reduzindo problemas de sincronização. Após a conexão, carregue a ROM e a sessão começa.
Multiplayer local e mods de splitscreen no emulador
Como mapear dois controles no Mupen64Plus no Android
No Mupen64Plus FZ ou AE para Android, o processo começa pelos perfis de controle. Abra o menu de três linhas, vá em Perfis > Perfis de Controles e crie um perfil novo para cada jogador, clicando no “+” e nomeando cada um (ex: “Controle1”, “Controle2”). Na tela de mapeamento, pressione cada botão físico correspondente ao botão virtual na tela. Repita para analógicos e todos os botões do N64.
Com os perfis criados, acesse Perfis > Select Profiles > Multi-Jogador. Selecione Jogador 1 e pressione qualquer botão do primeiro controle para parear; faça o mesmo para o Jogador 2 com o segundo controle. Controles Bluetooth e PS2 funcionam normalmente, desde que pareados antes de abrir o emulador. No PC, a configuração do Mupen64Plus é feita editando diretamente o arquivo InputAutoCfg, definindo perfis separados para cada controle e reiniciando o emulador para aplicar. Para quem busca uma comparação entre opções móveis, vale conferir um artigo sobre melhores emuladores de N64 para celular, que lista alternativas e prós/cons para Android e iOS.
SM64 Splitscreen e outros mods que expandem o N64
O mod SM64 Splitscreen de Kaze Emanuar é um dos casos mais notáveis de multiplayer expandido por ROM hack no N64. O processo de instalação usa o patcher online em hack64.net/tools/patcher.php: você seleciona sua ROM original de Super Mario 64 no formato .z64 (limpa, sem modificações prévias) e o arquivo de patch baixado do canal de Kaze. O patcher gera a ROM modificada em segundos, sem instalação de software.
Com a ROM patchada, basta carregá-la no Project64. O Jogador 1 controla Mario e o Jogador 2 controla Luigi, cada um com sua própria tela dividida. Para quem quer ir além, o SM64 Online (Net64) permite partidas com até 12 jogadores via servidor dedicado, usando o mesmo emulador base com configuração adicional. É um exemplo de como a comunidade do N64 continua expandindo o que o console pode fazer, décadas depois do lançamento.
Como reduzir lag e desync nas partidas N64 online
Ajustes no emulador para estabilizar a conexão
No plugin AQZ NetPlay do Project64, o lag compensatório controla quantos frames de atraso são usados para sincronizar os jogadores. O valor padrão é 5 frames. Se a partida apresentar choppiness ou desync, aumente gradualmente até 30. Valores mais altos estabilizam a sincronização, mas aumentam o input delay. No RetroArch, comece com latência de quadro em 3 e ajuste conforme necessário.
Vale lembrar que o N64 original já rodava a cerca de 20 FPS com quedas frequentes: algum grau de imprecisão em netplay é esperado e faz parte da experiência do console. Todos os jogadores precisam usar exatamente a mesma versão do emulador e da mesma ROM. Essa é a causa mais comum de desync e a mais fácil de evitar. Antes de qualquer sessão, confirme com os outros jogadores qual versão estão usando e compartilhe o arquivo de configuração se possível.
Boas práticas de rede e hardware para partidas estáveis
A primeira ação prática para estabilizar qualquer sessão de netplay é simples: use cabo Ethernet em vez de Wi-Fi. A instabilidade do sinal sem fio é a causa mais comum de lag intermitente, e substituir o Wi-Fi por uma conexão cabeada resolve boa parte dos problemas sem nenhum ajuste no emulador. Mantenha lobbies de 2 a 3 jogadores para melhor performance do netcode: sessões com 4 jogadores sobrecarregam a sincronização e aumentam a chance de problemas.
Para hospedar sessões sem Hamachi, configure o port forwarding no seu roteador para a porta usada no netplay (65535 no caso do Project64). Sites como portforward.com têm guias específicos por modelo de roteador. Com a porta liberada, outros jogadores conseguem conectar diretamente pelo IP público sem precisar de rede virtual. É um passo extra, mas elimina uma camada de intermediários e melhora a latência nas partidas.
O N64 ainda merece uma tarde de sábado
O Nintendo 64 não foi só um console. Foi um catalisador social. As sessões de GoldenEye no quarto com as luzes apagadas, o caos coletivo do Mario Party, a adrenalina do item azul no último trecho do Mario Kart: essas memórias não envelhecem porque não eram sobre o hardware, eram sobre as pessoas ao redor da tela. O console foi o pretexto, a companhia foi o jogo de verdade.
Com os emuladores certos e uma tarde de configuração, é possível recriar essas partidas com amigos do outro lado do país. Simple64 e Gopher64 são as opções mais diretas para netplay hoje; o Project64 com AQZ serve bem para quem quer granularidade de configuração; o Mupen64Plus resolve o multiplayer no Android. E mods como o SM64 Splitscreen provam que essa máquina multiplayer ainda tem o que dar. Décadas depois, o N64 continua juntando gente.
Se quiser continuar explorando esse universo, o Do N64 ao GameCube: Como a Nintendo Continuou o Legado traz um olhar sobre a continuidade técnica e de design entre gerações, enquanto o site também oferece guias de emuladores e recomendações clássicas. Para listas de títulos que definiram a década, veja Os 10 Melhores Jogos Para Reviver os Anos 90, Gamer das Antigas, uma boa porta de entrada para montar suas próximas tardes retrô.
A cultura retrô não vai a lugar nenhum, visite a Página Inicial, Gamer das Antigas para mais conteúdo, guias e análises.


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